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Paris Sempre Paris

O enigma do colar de Maria Antonieta

11 de agosto de 2017

Por Tom Pavesi

A protagonista principal deste enigma, que na verdade tratou-se de um golpe contra a rainha Maria Antonieta e os joalheiros, Böhmer e Bassange chama-se, Jeanne de Valois-Saint-Rémy, descendente direta de um filho bastardo do rei Henrique 2, que após ter passado por uma infância triste e miserável conseguiu provar sua origem real foi educada em um convento para jovens filhas de nobres, casando-se em 1780, com Nicolas de La Motte, oficial militar, guarda e segurança do 2° irmão do rei Luís XVI, Carlos de França , admitida a frequentar a corte de Versalhes com o falso título de condessa “La Motte-Valois”.

A história começa em 1772, quando rei Luís XV, querendo presentear sua última amante , Madame du Barry, contrata os melhores joalheiros da França, Böhmer e Bassange, para desenharem um colar excepcional, único, feito com as melhores diamantes do mercado. Mas Luís XV morre em 1774 sem ver e sem pagar o maravilhoso colar de 540 diamantes.

Böhmer e Bassange endividados tentam a todo custo vender o colar para o novo rei Luís XVI, a um preço extraordinário para época, 1.600.000 Libras (atualmente quase 7.000.000 euros). Maria Antonieta sabendo da intenção do seu marido em querer agradá-la recusou o presente, primeiramente devido ao alto custo (daria para comprar 3 navios de guerra, para se ter uma ideia), o país estava afundado numa crise econômica e conflitos políticos que poderiam prejudicar a imagem do novo rei e principalmente nunca usaria um colar que havia sido criado para uma amante, (ex-garota de programa para nobres) e sua inimiga confessa, Madame du Barry.

Réplica do colar de diamantes exposta no “cabinet des tresors” (quarto dos tesouros), no Castelo de Breteuil, a 35 km de Paris e a 20 km de Versalhes.

Em 1783, condessa La Motte-Valois convidada para uma viagem a Saverne, na Alsácia, conheceu o cardeal Louis de Rohan, e visto sua grande fortuna, tornou-se logo sua amante e confidente, conseguindo convencê-lo de que tinha uma relação íntima e amorosa com a rainha Maria Antonieta e poderia ajudá-lo a se reconciliar com ela, que ainda guardava um ódio violento pela humilhação que ele a fez passar em 1773, quando no cargo de embaixador em Viana, escreveu ao rei Luís XV, delatando um plano da Imperatriz da Áustria, Maria Tereza, (mãe de Maria Antonieta), de invasão a Polônia, com ajuda da Prússia e a Rússia. Carta interceptada e entregue nas mãos de Madame du Barry, que a leu em voz alta em um jantar entre nobres com intenção de provocar, ofender e humilhar sua jurada inimiga, Maria Antonieta. Em 1774, já como rainha, se vingou expulsando todos os dois, Du Barry e Louis de Rohan, de frequentarem Versalhes enquanto fosse viva.

Pintura a óleo de Louis René Édouard, cardeal de Rohan, século XVIII, pintor desconhecido.

La Motte-Valois com ajuda de seu secretário oficial, Réteaux de Villette, (outro amante e amigo do seu marido), brilhante falsário, escreveu várias cartas ao ingênuo, cardeal Rohan, (assinando como se fosse a própria rainha Maria Antonieta) dizendo que aceitava a reconciliação mas que em troca desta nova aliança e como prova de fidelidade e amizade precisa que ele a ajudasse emprestando uma certa soma de dinheiro para algumas obras de caridade pois não conseguia mais financiá-los devido à crise financeira que a França se encontrava. O cardeal vendo essa grande oportunidade de retornar a Versalhes prontamente executa entregando a soma requerida a La Motte-Valois como agradecimento e confiança dispensada pela rainha.

A condessa vendo a facilidade que foi retirar dinheiro deste homem, continuou a farsa por mais alguns meses até que o cardeal exige um encontro em Versalhes com a rainha para verificar pessoalmente se realmente estava perdoado como Maria Antonieta dizia nas cartas.

Portanto dando continuidade ao plano, outros personagens entram em cena, o conde de Cagliostro, charlatão italiano que se passava por mago, amigo pessoal e confidente do cardeal Louis de Rohan, e o próprio marido, Nicolas la Motte, todos cúmplices e associados para extorquir mais dinheiro do cardeal. Contratam uma prostituta muito parecida com Maria Antonieta, chamada Nicole Leguay d’Oliva, que em troca de uma boa soma em dinheiro aceitou se passar pela rainha nos jardins de Versalhes para enganar um misterioso pretendente que faria lindas declamações de amor. Não sabia nada sobre o plano contra o cardeal.

Retrato da condessa La Motte-Valois, autor desconhecido.

Tudo bem organizado, o encontro foi marcado para noite de 11 de agosto de 1784, o cardeal comparece nervoso e feliz, e não se deu conta da impostora Nicole Leguay, que se apresentou bem vestida como uma verdadeira rainha. O cardeal Rohan após ter trocado pouquíssimas palavras e ter recebido uma rosa teve o encontro logo encerrado pela La Motte- Valois que deu uma falsa desculpa que o encontro teria que ser encerrado devido a perigosa aproximação das cunhadas de Maria Antonieta.

O cardeal Rohan de volta a Alsácia certo que se encontrou com a rainha e que estava finalmente perdoado recompensou a condessa que pôde comprar assim uma bela mansão em Bar-sur-Aube, em Champagne-Ardennes.

Com o cardeal em suas mãos , a condessa La Motte-Valois começou então os preparativos para aplicar o maior golpe da história do século XVIII, o roubo do colar de diamantes dos joalheiros Böhmer e Bassange já convencidos pela própria condessa la Motte-Valois, que a rainha Maria Antonieta estava disposta em adquirir o colar secretamente, sem chamar atenção do país que passava por dificuldades econômicas. Foi combinado o pagamento em quatro parcelas de 400.000 libras (ou 1.750.000,00 euros), durante dois anos, com contrato de reconhecimento da dívida assinada pelo cardeal Louis de Rohan, garantia de honestidade, lealdade e respeito do compromisso em nome da rainha.

A manipuladora condessa vai ao encontro do cardeal com um carta assinada “Marie- Antoniete de France”, (Réteaux de Villette, o falsário, errou pois a rainha nunca assinava “de France”, depois do nome ), implorando para que ele, representasse a rainha na compra do famoso colar assinando as promissórias, e dando todas garantias aos joalheiros que a dívida seria paga. Devido à alta soma que estava envolvido, o cardeal pede ao seu amigo, mago, médium, Cagliostro, de organizar uma mesa espírita para decidir o que fazer. Uma criança espírita diz ao cardeal que se ele aceitasse o pedido da rainha muito breve seria promovido a 1° ministro do rei Luis XVI. Era o que precisava escutar para assinar o contrato.

Pintura sobre óleo, Maria Antonieta, “a Rosa”, 1783, de Elizabeth-Louise-Vigeé-Le Brun, museu do Palácio de Versalhes.

Em 01 de fevereiro de 1785, os joalheiros Böhmer e Bassange confiantes entregam o colar ao feliz cardeal Louis de Rohan que o entrega à falsa condessa La Motte-Valois que por sua vez entrega ao falsário Rétaux de Villette, disfarçado no momento como “Valet de Chambre” de Maria Antonieta, (criado pessoal da rainha).

No dia seguinte o colar é todo desmontado, os diamantes divididos entre o três cúmplices, Rétaux, o mago do cardeal Cagliostro, e o marido tenente oficial Nicolas La Motte. Na pressa e devido a preciosidade de cada diamante que trazia desconfiança aos futuros compradores, cada um vende sua parte abaixo do preço real do mercado para joalheiros de Londres e Bruxelas.

Seis meses depois, o cardeal Rohan sem notícias da sua doce rainha Maria Antonieta preocupado com a aproximação da data de pagamento da 1° parcela marcada para 01 de agosto de 1785 recebe a condessa Motte-Valois explicando na maior tranquilidade que a rainha se desculpava mas dificilmente conseguiria a soma de 400.000 libras, e que ele, como representante legal deveria assumir o pagamento desta parcela até que a rainha pudesse reembolsa-lo.

Os joalheiros advertidos pela condessa da dificuldade que se encontrava Maria Antonieta em a fazer o 1° pagamento através do seu representante cardeal de Rohan e também pelo fato de ainda não terem visto a rainha usando colar em nenhuma ocasião, entram em contato com a cortesã pessoal de Maria Antonieta, Madame Campam, perguntando se a rainha tinha algum problema com o pagamento e o porquê ela ainda não havia usado o colar. Surpresa com a questão, responde que não tinha conhecimento do assunto mas que informaria a rainha imediatamente.

Ao saber desta história e ofendida pela audácia do cardeal Rohan em usar seu nome, pede uma investigação urgente para o barão Breteuil, Ministro do rei Luís XVI, inimigo declarado do cardeal. Rapidamente todo o golpe é desvendado.

Em 15 de agosto de 1785, o cardeal Rohan pronto para celebrar a missa de Assunção na capela real de Versalhes é convocado pelo rei Luís XVI para se explicar. Depois de insistir que foi enganado pela condessa Motte-Valois e seus cúmplices jura inocência pedindo perdão e clemência. O rei sem hesitar ordena a prisão do cardeal em plena galeria dos espelhos onde é enviado a Bastilha a espera de um julgamento. Neste momento o maior golpe do século XVIII tornou-se público.

Leia nosso artigo sobre o que aconteceu com as pedras da Bastilha

Em seguida são presos, a condessa La Motte-Valois, o falsário Rétaux de Villette, Nicole Leguay d’Oliva a sósia de Maria Antonieta e o mago Cagliostro. Quanto ao marido da condessa Nicolas de La Motte, este conseguiu fugir para Londres.

Em 1786, Luís XVI ao invés de optar para um julgamento pessoal sem escândalos preferiu um processo público pelo Parlamento de Paris esperando uma condenação exemplar para todos os acusados e assim limpar a imagem Maria Antonieta acusada pela aristocracia de saber e ter participado na compra deste colar.

Resultado do processo:

– Cardeal Roham foi absolvido mas obrigado a vender várias de suas propriedades para reembolsar os pobres joalheiros, (os herdeiros descentes do cardeal continuaram a reembolsar os herdeiros dos joalheiros até o final do século XIX).
– Rétaux de Villette é julgado culpado por falsificação, condenado ao exílio, morre na Itália.
– Cagliostro é expulso da França, condenado pela inquisição italiana, morre na prisão em 1795.
– Nicolas de la Motte, condenado a prisão, não cumpre a pena por estar foragido. Protegido pela polícia volta para Paris em 1789.
– Nicole Leguay d’Oliva é absolvida, morre com 28 anos.
– Condessa La Motte-Valois é condenada a prisão perpétua, torturada e marcada com ferro quente com a letra V de “Voleuse”, (Ladra) – veja ilustração abaixo. Conseguiu fugir rapidamente para Londres subornando o chefe da guarda da prisão, suicidou-se ou foi assassinada em 1791.

Longe de limpar a honra de Maria Antonieta o processo público ao contrário do que se pretendia fortaleceu a imagem de uma rainha culpada. As consequências indiretas, três anos depois, forneceu argumentos para a queda da monarquia absoluta, início da revolução francesa de 1789, descrédito do poder real, impopularidade, condenação e a morte na guilhotina de Luís XVI e Maria Antonieta.

Leia nosso artigo sobre Robespierre, líder da Revolução Francesa

Filme

Baseado nessa história, foi lançado em 2001 o filme O ENIGMA DO COLAR. Veja o trailer e o cartaz do filme abaixo.

Tom Pavesi é brasileiro, formado em Arquiteto (PUC- Campinas), historiador e guia credenciado pelo Ministério da Cultura e do Turismo Francês com especialização em História das Civilizações, História da Arte, História de Paris, História da França, Arquitetura e Patrimônios franceses.

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